Fichamento comentado de Revertendo Imagens Estereotipadas, de Janaína Damasceno


DAMACENO, Janaína. Revertendo Imagens Estereotipadas: (panorama do cinema africano). Com Ciência (UNICAMP), v. 97, p. 1-3, 2008

“As imagens que constituem o nosso imaginário sobre os países africanos são formadas por estereótipos reproduzidos intensamente desde o período colonial. [...] Filmes em que se ensinava como era o comportamento dos ocidentais e como africanos deveriam reproduzir esse comportamento para se civilizarem eram distribuídos pelos escritórios britânicos e franceses mostrando como o cinema não era apenas um meio de diversão, mas era também imbuído de uma tarefa civilizatória.” (p. 1)

[O que Janaína chama de tarefa civilizatória é justamente esse ato de civilizar implícito nos filmes sobre o continente africano, de modo que não se fala sobre a África e sim sobre como ela deveria ser, como os civilizadores europeus desejavam que fosse o comportamento dos africanos. Portanto, a imagem transmitida sobre os países africanos para o mundo é essa imagem estereotipada construída pelo ocidente, fora do contexto real].

“Foi apenas com o vislumbre das independências que africanos passaram a ter direito de produzirem seus próprios filmes, falando de assuntos pertinentes à sua realidade e à sua fantasia.” (p. 1).

[A partir das independências os africanos puderam produzir seus filmes, ganhando, assim, mais autonomia na produção cinematográfica e podendo então mostrar a realidade do povo africano, suas lutas, anseios, fantasias, culturas. Com isso, os cineastas europeus também passaram a produzir filmes anticolonialistas].

“Os primeiros filmes produzidos e dirigidos por cineastas africanos narravam suas difíceis experiências nas metrópoles coloniais onde vivenciavam o choque com a descoberta do racismo, o desprezo e o mercado de trabalho.” (p. 1)

[Tendo o direito de produzir seus próprios filmes, no início era priorizado evidenciar as experiências vivenciadas no solo europeu].

“A distribuição dos filmes é feita por uma rede de camelôs e em locadoras de vídeo. A indústria de distribuição de cinema na África, assim como na América Latina é dominada por grandes indústrias internacionais, então o sistema nigeriano é uma opção que opera contra essa indústria hegemônica.” (p. 2).

[O barateamento da produção audiovisual deu a oportunidade do cinema nigeriano ir de contra a indústria hegemônica, em que indústrias internacionais controlavam todo o mercado. Isso fez com que a cinematografia nigeriana se tornasse a segunda maior do país].

“Esse esquema de produção e distribuição faz o diferencial do cinema nigeriano, que não recebe subsídios do governo [...] A história de africanos, contada por eles mesmos faz sucesso, subvertendo a ideia de que é necessário uma excelência de qualidade e produções de altíssimo custo para atrair público.” (p. 2).

[O conhecido cinema povo elabora filmes de baixo custo e os distribui por valores acessíveis para toda população e isso ajudou a propagar as produções africanas, sendo este o diferencial da Nigéria].

“Antes da Nigéria, Burkina Faso era reconhecida como a Hollywood africana. [...] Em Burkina Faso, como em muitas partes da África as dificuldades na produção de cinema provêm da escassez de recursos técnicos para a produção, mas também de dentro de um âmbito político, pela definição do que seja de fato a missão do cinema africano: fortalecer ou criticar as tradições. [...] Trata-se mais oportunamente de definir quais são os limites da tradição e da universalidade do cinema africano.” (p. 2).

[O que caracteriza o cinema africano é o fato dos filmes fortalecerem ou criticarem as tradições. Eles devem optar, segundo Nagib, por filmes que façam parte da própria sociedade, dando um toque especial ao saber usar as palavras para que sejam compreendidos, saindo um pouco de temas como o amor, a vida, a violência, que são temas apreciados pelos europeus e considerados exóticos. A dicotomia entre filmes rurais (tradição) e urbanos (universalistas) durou algum tempo e os temas propagados por grupos como “filmes-aldeia” relatavam casamentos poligâmicos e questões de gênero, filmes estes que se aproximavam mais da realidade rural do povo africano.]

“Conhecer a África pelos africanos poderia ampliar nosso entendimento, revertendo imagens estereotipadas de representação e contribuindo para um imaginário mais amplo sobre o continente. Poderia abrir-nos também para novas experiências e para a troca de vivências que poderiam nos mostrar novos meios de produção e distribuição de cinema que vão para além do modelo hollywoodiano.” (p. 2-3)

[Esse fragmento do texto explica bem o seu título “Revertendo imagens estereotipadas”, ao deixar evidente para os leitores que é apenas conhecendo os filmes sobre o continente africano produzidos pelos próprios africanos é que poderemos reverter essas imagens construídas pelo ocidente ao longo da história, visto que, segundo Janaína Damasceno, esses filmes eram imbuídos de uma tarefa civilizatória, portanto não caracterizavam a verdadeira África. A partir dos filmes dos africanos nossa visão será ampliada e conheceremos a realidade povo africano, bem como sua cultura, mas para isso é necessário interesse e curiosidade e assim reverteremos esse imaginário erguido para todos nós].


Comentários

Postagens mais visitadas